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sábado, 24 de abril de 2010

Os Boletins da Central


Para complementar o artigo, transcrevo alguns Boletins de Acidente de Trem, que dão uma idéia de como era dificultosa a operação destas locomotivas na linha do sertão. Ao todo, são 167 Boletins como estes, aqui transcritos parcialmente para não alongar demais o artigo. Eles constituem uma importante fonte de informações sobre as Texas da Central. Breve voltarei ao assunto, trazendo mais dados colhidos na região do ramal de Nova Era e nos próprios Boletins.

BOLETIM N . 67
Às 05:30 horas do dia 9 de março de 1952, o trem MEW-43, tracionado pela locomotiva 1666, conduzida por Guilherme Lélis, teve o vagão F113 descarrilado ao passar pelo km 837,700, percorrendo 100 metros nesta situação. O mesmo estava carregado com 500 sacos de arroz que seguia de Belo Horizonte para Montes Claros e foi colocado em 1º lugar numa composição de 19.
O espaçamento dos dormentes é de 0,60 metros, em mau estado de conservação num trecho de 100 metros para cada lado. O lastro é de cascalho misto. Houve danos na pregação numa extensão de 70 metros. Não se encontrou ferragem na linha nem houve danos pessoais.
Verificou-se atraso apenas para o K7 – 20 minutos.

BOLETIM N. 107
Às 22:00 horas do dia 29 de abril de 1952, o trem MEW-41, tracionado pela locomotiva 1662, conduzida por H. da Costa, teve o vagão GM241 descarrilado ao passar pelo km 807,302, trecho de reta. O mesmo foi encarrilado pelo socorro de Corinto e colocado em 4º lugar na composição. O espaçamento dos dormentes no local é de 0,60 metros, sendo que os mesmo estavam em mau estado num trecho de 100 metros para cada lado. O lastreamento é de pedra. Houve 112 dormentes danificados no acidente, que não prejudicaram o tráfego dos trens. Apenas o truque do vagão sofreu avaria. Não foi encontrada nenhuma ferragem na linha, sendo que a causa foi a fratura do trilho marca B. Douwlaes Estel D.P.II 1880.
Os atraso verificados foram: K8 – 7 horas e 27 minutos; N7 – 3 horas e 49 minutos; MEH-82 – 3:00 horas, e para o próprio trem acidentado – 16 horas e 50 minutos.

BOLETIM N. 232.
Às 23:40 horas do dia 09 de Dezembro de 1952, o trem CEC-44, com a locomotiva 1664 conduzida por Pedro Velozo, teve o vagão A199 descarrilado no km 838,250. O mesmo estava carregado com carvão vegetal de Várzea da Palma para Siderúrgica, percorrendo 40 metros após o descarrilamento. O encarrilamento foi feito pelo socorro de Corinto, sendo que o referido vagão foi colocado em 12º lugar na composição.
O espaçamento de dormentes na localidade é de 0,60 metros, estando em mau estado de conservação em 100 metros para cada lado. A linha é lastreada de pedra britada. Não houve danos pessoais, nem para o material rodante. Não foi encontrada ferragem caída na linha e ainda não se descobriu a causa do acidente.

BOLETIM N. 80
Às 22:50 horas do dia 12 de Dezembro de 1954, a locomotiva 1663, do trem C-94, conduzida por João Batista Efigênio, descarrilou o truque dianteiro do tênder ao passar pelo km 648, percorrendo 100 metros nesta situação. O descarrilamento se deu do lado do rôdo, onde a curva apresenta raio de 138,93 metros, com superelevação 9, numa descida. No local, o espaçamento dos dormentes é de 0,50 metros, estando em mau estado num trecho de 100 metros para cada lado. O lastreamento local é de pedra n. 3, e o trilho é do tipo B, sendo que 10,7 metros estavam fraturados e 100 metros com avaria na pregação. A locomotiva sofreu avarias leves, sendo que não houve queda de ferragens. Também não houve danos pessoais.
O encarrilamento se deu às 02 horas e 40 minutos, sendo totalmente desimpedida às 03 horas e 40 minutos.
Os atrasos verificados foram: S14 – 4 horas e 28 minutos; N6 – 3 horas e 48 minutos; R5 – 4 horas e 10 minutos.
Verificou-se que o trilho fraturou no momento da passagem da própria locomotiva.


Colaboraram neste artigo:
Jairo Mello (Teresópolis, RJ)
José Augusto Neto (in memorium - Belo Horizonte,MG)
José Expedito Assunção (Vespasiano, MG)
José Mauro Cardoso (Ipatinga, MG)
Gustavo Henrique (in memorium — Itabira, MG)

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma ajuda do destino



Uma rotineira incursão ferroviária na região de Pedro Leopoldo acabou por me colocar frente a frente com um sensacional arquivo da EFCB esquecido em um antigo abrigo de trólei nas proximidades da antiga Oficina de Carpintaria da Central. Trata-se do arquivo da extinta 12a Residência da EFCB. Se não bastasse a ação do tempo e dos insetos sobre aquela documentação, o arquivo também havia sido descoberto por delinquentes da região que, não contentes com a
depredação que fizerem no local, acabaram por incendiar o arquivo. A queima daquela papelada apagou uma parte importante da história ferroviária nacional. Perdemos o elo que nos unia ao passado de glória da Central. Este e outros incêndios em arquivos ferroviários que presenciei no apagar das luzes da RFFSA faz -me lembrar do histórico incêndio da Bibiloteca da Alexandria, que destruiu informações importantíssimas sobre as civilizações da antiguidade. Historiadores costumam dizer que a humanidade sofreu um atraso de mil anos com a destruição daquela biblioteca, de tão grande que foi a perda em conhecimento científico. No nosso caso, o dano foi apenas histórico e social. Com a perda de documentos oficiais da antiga Central, perdemos também a chance de entender o dia a dia de uma empresa estatal que levou o progresso ao sertão de Minas Gerais e de como ela afetava a vida da sociedade de seu tempo. Mas nem tudo está perdido. Consegui salvar muitos documentos naquele primeiro encontro com o arquivo. Entre as preciosidades encontradas, estão livros de ponto de pessoal (alguns datados da virada do séc. XIX), dezenas de volumes dos raríssimos Boletins de Pessoal da EFCB, e muitos outros documentos importantes para se reconstruir a Central foram salvos. Entre esses documentos estavam os relatórios sobre o alargamento da linha até Sete Lagoas, por exemplo.
A demora em se conseguir uma autorização da então RFFSA para a retirada do restante do material acabou por deixá-lo exposto ainda mais ao vandalismo e muita coisa se acabou se perdendo para sempre. Entre as raridades da EFCB que consegui salvar está um documento intitulado “Boletim de Acidente de Trem”, de Janeiro a Dezembro 1952. Ao folhear as primeiras páginas veio a surpresa maior: eram, em sua maioria, relatos com as locomotivas Texas da bitola métrica. Pelo visto, a Central estava preocupada com os constantes descarrilamentos dessas locomotivas e fazia uma colheta de dados de todas as ocorrências relacionadas a elas. O documento lança uma nova luz sobre a atuação dessas locomotivas em Minas Gerais.