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sexta-feira, 23 de abril de 2010

Uma ajuda do destino



Uma rotineira incursão ferroviária na região de Pedro Leopoldo acabou por me colocar frente a frente com um sensacional arquivo da EFCB esquecido em um antigo abrigo de trólei nas proximidades da antiga Oficina de Carpintaria da Central. Trata-se do arquivo da extinta 12a Residência da EFCB. Se não bastasse a ação do tempo e dos insetos sobre aquela documentação, o arquivo também havia sido descoberto por delinquentes da região que, não contentes com a
depredação que fizerem no local, acabaram por incendiar o arquivo. A queima daquela papelada apagou uma parte importante da história ferroviária nacional. Perdemos o elo que nos unia ao passado de glória da Central. Este e outros incêndios em arquivos ferroviários que presenciei no apagar das luzes da RFFSA faz -me lembrar do histórico incêndio da Bibiloteca da Alexandria, que destruiu informações importantíssimas sobre as civilizações da antiguidade. Historiadores costumam dizer que a humanidade sofreu um atraso de mil anos com a destruição daquela biblioteca, de tão grande que foi a perda em conhecimento científico. No nosso caso, o dano foi apenas histórico e social. Com a perda de documentos oficiais da antiga Central, perdemos também a chance de entender o dia a dia de uma empresa estatal que levou o progresso ao sertão de Minas Gerais e de como ela afetava a vida da sociedade de seu tempo. Mas nem tudo está perdido. Consegui salvar muitos documentos naquele primeiro encontro com o arquivo. Entre as preciosidades encontradas, estão livros de ponto de pessoal (alguns datados da virada do séc. XIX), dezenas de volumes dos raríssimos Boletins de Pessoal da EFCB, e muitos outros documentos importantes para se reconstruir a Central foram salvos. Entre esses documentos estavam os relatórios sobre o alargamento da linha até Sete Lagoas, por exemplo.
A demora em se conseguir uma autorização da então RFFSA para a retirada do restante do material acabou por deixá-lo exposto ainda mais ao vandalismo e muita coisa se acabou se perdendo para sempre. Entre as raridades da EFCB que consegui salvar está um documento intitulado “Boletim de Acidente de Trem”, de Janeiro a Dezembro 1952. Ao folhear as primeiras páginas veio a surpresa maior: eram, em sua maioria, relatos com as locomotivas Texas da bitola métrica. Pelo visto, a Central estava preocupada com os constantes descarrilamentos dessas locomotivas e fazia uma colheta de dados de todas as ocorrências relacionadas a elas. O documento lança uma nova luz sobre a atuação dessas locomotivas em Minas Gerais.

Renasce o interesse pelo ramal




Tal situação permaneceu até 2004, quando a Vale pretendeu construir duas linhas para solucionar os problemas de tráfego da FCA. A primeira linha seria a ligação Patrocínio a Sete Lagoas ou Prudente de Morais que eliminaria toda a antiga linha da EFOM e VFCO na região de Patrocínio a Divinópolis, e dali até Belo Horizonte. Essa obra, além de agilizar o tráfego dos trens de grãos, acabaria com o trafego de trens por regiões muito povoadas ao longo da linha atual em uso. O novo traçado entre Ibiá a Sete Lagoas teria 450 quilômetros. Com isso, a velocidade, que hoje é de 16 quilômetros por hora no antigo trecho passaria para 60 quilômetros por hora. Atualmente a FCA transporta grãos, combustíveis, álcool, açúcar, cimento e contêineres naquela região, com uso de trens com tração distribuída (locotrol e tricotrol).
A segunda obra pretendida pela Vale seria a ligação Pirapora a Rio verde, Go e Pirapora Unaí, de onde se faria a ligação Unaí a Anápolis, ligando a FCA e EFVM com a Norte Sul.


O período da RFFSA




Ponte da EFCB sobre o rio São Francisco.
Foto de Alexandre Almeida.

Nos anos 60 a RFFSA deu continuidade ao projeto de prolongar a linha de Pirapora rumo a Goiás. As obras de infraestrutura foram construídas até a localidade de Paredão de Minas, MG. Pontes, cortes e grandes aterros foram construídos, mas novamente os planos mudaram e as obras foram paralisadas. Há que diga que um trecho de linha chegou a operar, mas foi arrancado novamente. Cartas de navegação da USAF mostram a linha construída até Paredão de Minas, como relatam antigos ferroviários da região.
Nos anos 80 a RFFSA parou de cruzar a ponte sobre o São Francisco e deslocou o fim da linha novamente para Pirapora. Ainda nos anos 80 o ramal começou a ser gradativamente abandonado, até que em 1996 a FCA assumiu a malha da antiga Central e fechou de vez o ramal.